Rokaz Trip no Yosemite (3): "Into the Wild"

Para descansar os braços e conhecer melhor o parque do Yosemite, decidimos durante esses últimos dias caminhar dentro da natureza selvagem do parque, longe do Vale do Yosemite.
O Vale do Yosemite atrai milhões de turistas por ano graças a sua beleza natural espectacular. Mas depois de uma hora de caminhada fora do vale, já não tem mas ninguém. Em 4 dias de trilha, encontramos duas pessoas o primeiro dia, duas pessoas o último dia, e só!!
Longe da multidão do vale, descobrimos florestas imensas, paredões solitários, árvores gigantes, cachoeiras e lagos maravilhosos nos planaltos do parque.
















As cores do outono no Yosemite:



Todo dia a noite, procuravamos um lugar plano, com uma fonte de água, para bivaquar perto. Uma grande fogueira esquentava nossos dedos gelados e nossas pernas um pouco duras.







Usavamos a fogueira também para cozinhar:



E colocávamos toda a comida nas alturas, fora do alcance dos ursos...



No segundo dia pela noite, chegamos a um lago a 3000 metros de altitude. O tempo que era bonito e quente de dia, piorou de repente. Não levamos barraca para andarmos o mais leve possível, um velha lona foi nosso abrigo...Mesmo com o abrigo, a noite foi muito fria e húmida... De manhã, tivemos uma imensa surpresa!






O mesmo lago, antes da neve:



E depois:


Ficamos um dia presos nesse campo alto, esperando uma melhoria do tempo para descer, tentando nos aquecer com uma fogueira:



No dia seguinte o tempo melhorou, o sol apareceu. Que bom que foi sentir o calor do sol de novo... Conseguimos descer e escapar da zona alta e nevada do parque .
















Agora nos sentimos prontos para escalar o rei dos big walls, El Capitan. Tentaremos escalar a via mais famosa, "The Nose". São 35 cordadas de dificuldade entre sexto e 10b brasileiro, mas muita gente escala a via em artificial, o seja usando os móveis como "agarras" para escalar.
Pensamos bastante na estratégia que vamos adotar para escalar essa via. Poderíamos tentar o big wall em um dia, como o Half Dome, escalando o mais rápido possível, em artificial ou livre, com mochilas leves, e com o risco de passar uma noite sem saco de dormir.
Mas dessa vez tentaremos a via no estilo clássico, ou seja em dois, três ou quatro dias. Queremos entrar no clima, ficar vários dias na parede, viver uma experiência de "big wall" de verdade. Viver vários dias em um mundo vertical, dormir pendurado numa cadeirinha, tomar um café da manhã a 700 metros do chão! E queremos escalar o máximo possível em livre, o que vai ser bem mais difícil e demorado que escalar em artificial.

Hoje a noite, as estrelas estão brilhando no céu, tomará que essa semana não neve de novo...

Rokaz Trip no Yosemite (2)

Depois de escalar o Half Dome, descansamos um dia. Um dia, para dormir tarde, ler, cozinhar outra coisa além de massa e arroz, e tirar algumas fotos claro...

El Capitan e o vale do Yosemite:



Dominando o Vale, o Half Dome:





Na esquerda do Half Dome, o paredão vertical que escalamos:



O dia seguinte ficamos no Camp 4. Mas não foi para descansar, foi para escalar. O Camp 4 fica no meio de dezenas de boulders! O mais famoso de todos, os norte-americanos falam que é o boulder mais famoso do mundo, chama-se "Midnight Lightning". Ele fica no meio do Camp 4! O boulder é muito alto, é um V8 que agora deve ser mais dificil porque as agarras estão bem polidas. Fomos até a metade do boulder e amarelamos...



Tem muitos outros boulders interessantes à 50 ou 100 metros do camping. Até boulders negativos com fenda para trabalhar a técnica de entalhamento!




E outros mais clássicos.




No Yosemite, tem os famosos big walls, tem o boulder mais famoso do mundo, e tem também uma via de uma enfiada famosa no mundo inteiro. Imaginem um teto perfeitamente liso, de 6 metros de avanço, a 150 m do chão, com uma fenda reta no meio dele, e com o visual do vale do Yosemite atrás. É um mundo a parte, é a via"Separate reality".

Chegamos rapelando:



As vezes uma fenda vertical parece difícil, então como escalar uma fenda completamente horizontal?!? A via tem como grau 5.12 a (8a brasileiro), mas os amigos do Camp 4 me falaram que para alguém muito forte em fenda parece um 5.12 b (8b brasileiro), e para quem não é acostumado aos entalhamentos de pé e mão em granito é mais um 9c ou 10 a brasileiro...
Fui uma primeira vez em artificial na fenda para colocar os móveis. Pendurar-se emum móvel para colocar um outro já foi difícil, achei que não ia conseguir fazer um movimento em livre nessa fenda terrível.

Cédric foi primeiro mas não conseguiu sentir bem os entalhamentos, ele fez alguns movimentos isolados.




Eu estudando a via de baixo:



Descansei um pouco e dei uma primeira entrada. No inicio do teto estava bem ansioso. Será que vou conseguir ficar pendurado com uma das mão e um pé entalhados num teto?
O mais difícil é acreditar no primeiro entalhamento. Tem que fechar a mão com muita força na fenda e rezar para ela não sair arrancando a pele. É uma sensação muito estranha. O meu primeiro entalhamento não saiu, o segundo também não, um miragre! No final a fenda é mais estreita, e os entalhamentos são bem mais difíceis.












Na minha primeira entrada consegui ir quase até à agarra boa no final da fenda. Tentei uma segunda vez e cheguei no mesmo lugar, faltou muito pouco...

Nesse dia estavamos com 5 outros amigos, todos escaladores de pelo menos de 8b a vista em calcaário, e ninguém mandou a via. Um osso essa via, um osso lindíssimo, mas um osso duro... I'll be back!


Nosso vizinho no Camp 4 é um amigo belga, Nicolas Favresse, um dos melhores escaladores de fenda do mundo. Ele mandou dois meses atrás"Cobra Crack", no Canadá, um 11a de fenda colocando os móveis! Agora ele esta tentando liberar uma via de décimo grau de 25 enfiadas no El Capitan. Cada vez que ele volta no Camp 4 ele conta aventuras, piadas e toca música. Ele sempre nos ajuda a escolher as vias, o material, e empresta as peças móveis que estão faltando. Gente fina... Ele está na direita da foto:




A semana passada, achando o granito do Yosemite bastante liso, pensei que não ia precisar de esparadrapo para escalar. Mudei de idéia, depois do Half Dome, minhas mão estavam mal. Fiz então como a maioria dos escaladores daqui, uma luva de esparadrapo que vou usar várias vezes.

Antes:


Depois:


Hoje escalamos uma via de 8 enfiadas na entrada do Vale, perto da Separate Reality. A via chama-se "Rostrum", é considerada uma das vias mais difíceis em livre do Vale, uma das mais lindas também. A via escala um pilar vertical de 350 metros de altura em 8 enfiadas de 40 ou 50 metros. Todas as enfiadas são de sexto ou sétimo grau brasileiro, cada metro é sofrido, todos os lances são extraordinariamente árduos e bonitos. As enfiadas de sexto grau são as mais difíceis: são os famosos "off-width" ou fendas largas, onde os escaladores de décimo grau passam o mesmo perrengue que os de oitavo grau. Num "off width" tem que entalhar as pernas, os cotovelos, a cabeça, e rezar para não cair porque não há lugar para colocar proteção, a fenda é larga demais para os móveis...

A fenda de 7c da terceira enfiada:



A quarta enfiada, 20 metros de fenda estreita e 25 metros de fenda larga:










Uma das paradas com móveis:



Será que essa última proteção que coloquei 3 metros em baixo poderia aguentar a queda?




Se você não animar de escalar um oitavo grau a vista com uma proteção a cada 5 metros, melhor não entrar nessa via, vai ser um pesadelo!





As vezes é bom ser um pouco flexível para achar um descanso numa fenda negativa. Essa penúltima enfiada foi realmente um espectáculo:



A ultima enfiada: uma travessia, uma última agarra boa para pendurar-se e um terrível off-width. O cédric escalou 20 metros sem colocar uma proteção sequer...





Hoje foi mais um dia rico em adrenalina e acido lactico, em gritos de medo e de alegria, e no final das contas fiquei feliz porque consegui encadenar todas as enfiadas a vista, e mais importante ainda, chegamos para o pôr do sol no topo da via...




A partir de amanhã vamos fazer uma trilha de 4 dias para descansar os braços e a pele das mãos... Será uma volta de 100 kilômetros numa área selvagem do parque, longe dos turistas,
4 dias "into the wild"!

E a semana que vem, estaremos prontos para escalar "El Capitan".