Rokaz Trip no Yosemite (4): El Capitan!!!

Acabo de viver os momentos mais intensos da minha vida. Escalei com o Cédric a via de big wall mais famosa, fabulosa e mítica do mundo!! A via The Nose, no El Capitan. Vou tentar com algumas fotos e palavras compartilhar com vocês a beleza da aventura que acabamos de viver.

Em Novembro de 1958 Warren Harding e seus companheiros escalaram a via The Nose em 48 dias. 50 anos mais tarde, escalamos a via em 3 dias. Foi a escalada mais difícil, exposta, exigente que já fiz da minha vida. Não sei falar ainda se a escalada do Nose foi o cume, o parodoxismo da minha vida de escalador, ou se foi o ponto de partida de uma longa série de escalada de big walls. Mas o que posso dizer é que quando estava escalando essas fendas de granito maravilhosas, quando estava olhando as estrelas cadentes sentado nos platozinhos dos bivaques a 400 ou 700 metros de altura, não tinha mais questão existencial. Para que viver, aonde ir? Tinha que escalar, subir reto em direção ao cume. Me sentia mais vivo, feliz, simplesmente, profundamente.


A via sai do ponto mais baixo, no meio do big wall, segue o pilar entre o sol e a sombra e acaba no ponto mais alto do El Capitan:



A escalada de um big wall precisa de bastante preparação física, psicológica e logística. Ficamos um dia pensando no material para levar, preparando a comida, estudando o guia, estabelecendo estratégias. Não tínhamos "portaledge", essa cama que fica pendurada para dormir em qualquer lugar de uma parede vertical, então tínhamos que chegar todo dia a noite num platozinho para dormir. Na parede existem 5 lugares planos de mais 50 cm de largura, onde da para dormir sentado e olhe lá. E muito importante alcançar todo dia a noite um desses lugares. Se o escalador não alcançar um deles, ele passará a noite pendurado na cadeirinha na parede vertical, não descansará, e o no dia seguinte o seu desempenho será péssimo...

Um dia antes de começar a escalada fomos no pé da parede reconhecer o percurso da via. Por acaso encontramos o Chris Sharma. Ele tinha descido do Nose depois de tentar escalar o Nose em livre. Para quem não conhece ele, ele é provavelmente o escalador mais famoso do mundo atualmente. Mas ele é modesto, e foi muito simpático conosco. Ele nos explicou onde passava a via, em francês "s'il vous plaît"!! Nos contou que preferia de longe escalar em Céuse na França que no Yosemite!" O estilo de escalada aqui é tão diferente do calcário..." disse. Eu falei para ele das escaladas no Brasil, quem sabe talvez ele irá escalar no país do carnaval um dia...





O resto do dia ficamos preparando o material para a escalada.
O material que trouxemos:
- Um haul bag da Black Diamond para levar nosso equipo. Um haul bag é um saco gigante e ultra resistente que os escaladores de big walls puxam com uma corda. O apelido dele em francês é a "patate", a batata, é só olhar a forma do sacão para entender...
- Duas cordas Beal, uma Stinger rosa de 60 m em 9,7 mm para escalar, e uma Cobra de 50 m em 8,6 mm azul para puxar a batata
- 18 costuras e 7 mosquetões com rosca
- 4 fitas de 65 cm e 4 fitas de 125 cm
- Sapatilhas confortáveis
- 22 cams e 15 nuts (são os móveis)
- Dois capacetes
- Um Reverso e um Grigri da Petzl para dar segurança
- Uma cadeirinha Sama da Petzl para o Cédric, mas minha cadeirinha "Big Wall" da Conquista, que é bem melhor pois é bem mais confortável para escaladas longas, e o conforto é crucial em big wall.
- Uma polia "Mini traxion" e um Jumar da Petzl para puxar a "batata"
- 3 litros de agua por pessoa por dia
- 3 sanduiches de presunto e queijo, dois sanduiches com geleia, 5 Power Bar (Barras energéticas) por dia e por pessoa
- Dois sacos de dormir e algumas roupas leves e quentes
- Esparadrapo

O primeiro dia a "batata" pesava 40 kilos mais ou menos.

Eu, no primeiro dia as 7 da manhã, olhando El Capitan acima, com o material de escalada e a batata na esquerda:


Um videozinho, no inicio da via, no primeiro dia. Não liguem para o meu português, esta péssimo, a emoção era forte...

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Eu guiando a primeira enfiada do Nose, uma fenda de sexto grau com uma rocha muito lisa, pouco aderente. Olhem a parede acima, o longo caminho até o cume, 900 metros de parede vertical...



O Cédric guiando a segunda enfiada:



Na primeira travessia da via, exposta, com poucas agarras, lindíssima:




Nas quarta, quinta e sexta enfiadas, um granito sempre perfeito:







No primeiro dia, ultrapassamos uma dupla de escaladores que estavam querendo escalar a via em 5 ou 6 dias.


Um exemplo de parada num big wall: dois mosquetões com rosca nas duas chapeletas (ou nos dois ou três moveis quando não tem chapeleta...), dois fiéis como solteiras nos dois mosquetões com rosca, na esquerda o reverso para dar segurança, na direita a polia e o jumar para puxar a batata com a corda azul, entre os dois fiéis pendurado na corda o material que não tinha usado na enfiada anterior, e as luvas indispensáveis para puxar a batata:



A batata, pendurada na corda azul mais fina. Puxar ela é a parte mais ingrata de uma escalada de big wall...



No primeiro dia a noite chegamos como previsto num lugarzinho plano, "the Dolt Tower". Foi um momento inesquecível, dormir com as pernas balançando a 300 metros de altura... Dormimos com cadeirinha e solteira, obviamente!




No segundo dia encontramos em uma parada da via um homem sozinho que tinha dormido por lá. Conversamos um pouquinho, ele apresentou-se, ele era Eric Perlman, o diretor da série de vídeos "Masters of stone", vídeos de escalada bastante famosos:



Ele tirou uma foto nossa:



Ele não estava no El Capitan por acaso. Ele estava com uma batata cheia de material para filmar e tirar fotos. Infelizmente não era para nós! Ele estava esperando um outro escalador, uns dos melhores escaladores de fenda do mundo e ex-campeão mundial, que ia tentar quebrar nesse dia o recorde de velocidade de escalada do Nose: o famoso Yuji Hirayama, com o companheiro dele, o folclórico escalador norte americano dos anos oitenta Hans Florine.
Dez minutos mais tarde, vimos chegar os dois foguetes: o recorde é de 2h 43 min dos irmãos Huber!! Tentei filmar, mas infelizmente, eles nos ultrapassaram na enfiada mais fácil da via, um quinto grau com um lancezinho de sexto, então não foi tão impressionante como ver eles escalarem as outras enfiadas em cima bem mais difíceis. Fiquei impressionado como os dois escaladores foram "gentlemen", apesar da corrida atrás do tempo, eles pararam alguns segundos para nos cumprimentar e falar algumas palavras em francês conosco!

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Depois escalamos em algumas horas as enfiadas que o Yuji e o Hans tinham escalado em alguns minutos... Todas de sétimo grau, com entalhamentos de mão e pé, em fendas completamente perfeitas:



Os pés do Cédric...



Uma dupla em uma outra via de artificial a 30 metros de nós. Olhem o portaledge, perdido nesse oceano de granito:



Eu sentado na "Texas Flake", um lasca de granito afastada da parede, surreal!




Eu escalando a "Boot Flake", uma das enfiadas crux da via:


Depois da "Boot Flake", a linha de fenda que a via segue para de repente. Em cima tem um muro liso. Mas os conquistadores tiveram uma idéia brilhante e audaciosa: fazer um péndulo gigante para alcançar uma outra linha de fenda a 25 metros na esquerda. Esse lance famoso chama-se "the King Swing", tentei filmar meu péndulo com a maquina na mão!!

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Depois de parar de filmar demorei, mas consegui com um péndulo alucinante entalhar minha mão na outra fenda na esquerda, segurar dois segundos para colocar um móvel, e respirar...

A enfiada depois do King Swing:



No final do segundo dia chegamos embaixo da enfiada mais famosa da via: "The great roof", um teto gigante. Na direita do teto tem uma outra dupla de escaladores que quase alcançamos esse dia:



Mas paramos antes de escalar a "the great roof" para aproveitar uma parada confortável chamada "Camp 4", como o famoso camping dos escaladores no vale, para passar a noite. Mais uma noite super desconfortável, onde tive a impressão de ficar mais tempo olhando as estrelas que dormindo...



O terceiro dia foi muito intenso, faltavam mais de 10 enfiadas para escalar, dentre elas as duas mais difíceis, "the great roof" e uma outra chamada de "changing corner".

Uma foto tirada da enfiada em baixo do great roof, mostrando o camp 4 onde dormimos a segunda noite, e os 700 metros verticais de parede em baixo...



A famosa enfiada do great roof começa com uma fenda perfeita de sétimo grau que consegui escalar em livre.




Parei num nut que parecia bom, e filmei esse momento tão especial:

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Chegando no teto, a fenda fica super estreita, para escalar em livre tem que escalar décimo grau a vistá colocando os móveis, o que não é o meu caso, de longe. Escalei o resto da enfiada em artificial, colocando e puxando um móvel a cada metro.



Os móveis no teto para a progressão em artificial:



O Cédric escalando a mesma enfiada mágica, com certeza a mais estética da minha vida...





Cédric escalando a enfiada em cima do great roof:




Eu guiei a enfiada seguinte, uma outra fenda que teria que inventar se não existisse!


Essa é a enfiada crux da via: the "changing corner". Em livre o grau é 10b/c, mas na realidade não vi nenhuma agarra no crux... So três ou quatro escaladores no mundo conseguiram escalar essa enfiada em livre. Para mim foi a enfiada em artificial mais difícil da minha vida!



O crux é passar esse ângulo perpendicular para mudar de diedro, tem uma chapeleta e depois nada... Uma fenda ultra fina e só, coloquei móveis menores que uma unha! Vaquei uma vez, dois metros, pois um móvel minúsculo não aguentou o meu peso... Foi um susto terrível, pois esse ângulo de granito podia ter cortado minha corda facilmente... Agora prefiro esquecer esse momento.



O Cédric, no final do changing corner:



E guiando a enfiada seguinte:



Será que esse paredão é um pouco negativo?



O terceiro dia foi muito puxado, não paramos nem dez minutos para comer. Finalmente chegamos no cume, no por de sol, depois de três dias de escalada. Foi um desses momentos que você lembra com carinho a sua vida inteira...



Dormimos no cume do El Capitan, porque a descida de rappel é complexa e perigosa de noite.
Acordamos com o sol nascente no Half Dome o dia seguinte, ou seja hoje de manhã.




Agora que já escalei a "the Nose", qualquer coisa pode acontecer, eu acho que vou ficar feliz alguns anos só lembrando dessa aventura...



Hoje a tarde está nevando no Yosemite, que bom que conseguimos escalar a via em 3 dias e não em 4!!!

4 comentários:

  1. Magnifico :]
    Agora posso acreditar que:
    -Chris Sharma na eh uma lenda urbana... [o que ele escala n da pra acreditar o.o']

    -E que o El Capitan / Nose existe, e eh diferente de td :]

    Incrivel!

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  2. Oi ... nossa que lugar maravilhoso.. inesplicavel a beleza desta parede !!! bom retorno pra casa !!!Anne Ouriques

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  3. JADIR HENRIQUE DA SILVA5 de dezembro de 2008 21:01

    SIMPLESMENTE EMOCIONANTE, A FILMAGEM DISPENÇA DETALHES. MUITO BOM, ADRENALINA AO MAXIMO E FORÇA AO EXTREMO.

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